Contos, textos, ensaios... Pedro Aruvai

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O cadastro




UM CONTO COTADO ASSIM
"O cadastro"



Nos dias de hoje as pessoas andam meio desesperadas,
querendo vender de tudo, comprar de tudo,
conseguir algum dinheiro, para isso fazem qualquer coisa.
O comercio para vender seus produtos ataca as pessoas,
aborda a todos sem cerimônia e já vai expondo tudo o que
acha que a pessoa precisa para comprar.
O mundo do comercio está totalmente enlouquecido!
Fazem qualquer cadastro, qualquer ficha a qualquer pessoa,
mesmo sem a pessoa querer e sem saber para que serve.
Cadastro para cartão de crédito, para empréstimo, para pesquisa, para sorteio, para vantagens sabe-se lá do que, é impressionante!
Outro dia só porque me encostei num desses balcões onde
ficam desses atendentes, sem nenhuma intensão, veio logo
um moço me atender. Sem que eu pedisse-lhe nada, sem lhe chamar para ser atendido, o rapaz chegou e foi logo me atendendo.
Pegou duns papéis, desses de fazer fichas, cadastros e etc e começou a escrever. Enquanto preenchia o cadastro que não sei para que era,
me falava um monte de coisas, das ofertas, das promoções, das vantagens, dos benefícios, das promessas maravilhosas do mundo comercial. Escutava-lhe calado, observando o seu preenchimento e ouvindo suas palavras rápidas sem entender quase nada.
Por fim parou por um instante e perguntou meu nome.
Por educação resolvi falar, já que eu estava ali,
não havia problema algum.

-Machado de Assis. -disse-lhe.
De imediato começou a escrever meu nome nos quadrinhos
das folhas de cadastro. Mas percebi que ficou meu confuso,
talvez tenha achado estranho esse nome.
Olhou-me, certamente pensou em falar algo, não falou,
escreveu meu nome no papel.

-José de Alencar. -disse-lhe quando vi que havia terminado
de escrever o Assis.

-Como ? -indagou confuso, me olhando.
-José de Alencar. -repeti.
-José de Alencar ? -perguntou me olhando ainda mais confuso.
-não é Machado de Assis, o seu nome ?
-Sim. -disse e lhe expliquei- Machado de Assis, José de Alencar. -concluir.
Percebi que quis sorrir, mas conteve-se e completou o nome,
certamente pensando ser uma brincadeira. Quando acabou,
eu concluir o resto do meu nome.
-Cruz e Souza.
Nesses cadastros é preciso deixar o nome completo.
Pelo jeito que me olhou deve ter me xingado. Eu devia está
zoando com a cara dele. Ficou meio sem vontade de escrever
o resto do nome. Balançando a caneta na mão, me olhando sem
saber o que perguntar. Resolvi lhe ajudar, disse-lhe ser meu
nome de verdade, meu pai se chamava Machado de Assis, José
de Alencar. De imediato ele me perguntou:

-E Cruz e Souza ?

-de minha mãe. -respondi.

Não muito satisfeito completou meu nome na folha de cadastro. Passou-me os papéis e disse para falar com a moça no outro balcão. Peguei os papéis, ainda não sabia o que era aquilo, para que servia, mas resolvi ir até a moça. A moça me pareceu simpática, bonita, e para ser aprovado precisava passar por ela. O cadastro estava pronto, não me custava nada ir a moça. Me recebeu com simpatia, sorriso no rosto, entreguei-lhe os papéis. Olhou direto no meu nome.
-então senhor... Machado de Assis ?
-sim. -respondi tranquilo.
Percebi que quis sorrir. Talvez quando leu o resto do nome.
-José de Alencar. -quase num murmurio, ela falou.
-também. -respondi.
-eram escritores, não eram ?
-meu pai.

-os dois ?
-não! Quero dizer: meu pai me deu esse nome.

-mas os dois eram escritores...
-sim. Claro!

-e Cruz e Souza ?

-poeta.

-seu pai era poeta ?

-não! Cruz e Souza era poeta.

-então seu pai homenageou os três ?

-minha mãe.

-como assim ? O senhor disse que foi seu pai...
-Machado de Assis e José de Alencar, do meu pai. Cruz e Souza,
de minha mãe. Entendeu ?

-entendi.
-respondeu meio confusa, me olhando de soslaio,
a moça olhava meu cadastro, que ainda eu não sabia se era
cadastro ou ficha e para que servia.

-então, senhor Machado, o que vai comprar na nossa loja hoje ? Aproveite nossas ofertas!

-nada!

-nada ?
-nada. Não preciso comprar nada.

-o senhor só veio fazer o cadastro...

-é... fiz! O moço ali insistiu tanto...

-o senhor trabalha no que ?

-não trabalho.

-não trabalha, senhor Machado ?
Me olhava de soslaio, indagativa, me prescrutando, revirando
os papéis do cadastro nas mãos.

-não. Sou aposentado. -respondi.

Fixou os olhos em mim, pareceu espantada.
-aposentado ? Mas me parece tão moço. Não tem registro
em carteira ?

-não.
-comprovante de renda ?
-não.

-e o comprovante da aposentadoria ?

-não tenho comprovante.

-como assim ?
-não recebo comprovante. Eu mesmo me aposentei.
Por conta própria. Resolvi não trabalhar mais. Então estou aposentado.
-entendi... -murmurou a moça, olhando-me de lado,
quando colocou os papéis sobre o balcão e disse: -já que o senhor
não tem comprovante de renda...

-não posso me cadastrar ?

-infelizmente, senhor Machado...
não posso aprovar o seu
cadastro sem um comprovante.
-tudo bem.

-mas se o senhor quiser, volte aqui outra hora, traga um
comprovante de renda que nós aprovaremos o seu cadastro.

-obrigado, moça.
-de nada.

Antes de sair da loja, um outro fazedor de cadastro me parou,
com sua prancheta na mão e uma caneta.

-Já fez seu cadastro ? Vamos fazer ?

"UM CONTO CONTADO ASSIM"
-O cadastro-
"sexta-feira, 02 de abril de 2010"
"Autor: Pedro Aruvai"

5 comentários:

Crista disse...

OLá...
Bem vindo em meu blog e em meu coração.
Tu já sabes que te gosto e que já te sigo em outro blog,não é?
Li o teu conto e tens toda razão.
Beijosss...e FELIZ PÁSCOA e nada de fazer cadastro...rsrsrsrsrs...ainda mais sem comprovante de renda...rsrsrsrs...snr.poeta...rsrsrsrs...

M@ria disse...

Bem vindo sempre amigo.
Amei seu conto...Parabéns!!

Abençoada e Feliz Páscoa!!

M@ria disse...

No silêncio do jardim pode se ouvir preces estampadas em pétalas e galhos, se as folhas murcham, uma sorri a outra como se rogassem o frescor do orvalho.

(Sirlei L. Passolongo)


Feliz semana....Amor & Paz!

José Pedro da Silva disse...

obrigado, Crista, pelo comentario e pela visita.
obrigado, Maria, pelo comantario e pela visita!

M@ria disse...

"Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida."

(Carlos Drummond de Andrade)


BOM FDS e beijos meus!!