Contos, textos, ensaios... Pedro Aruvai

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O tédio - 4

O TÉDIO - 4

[…]



Não havia outra saída, teria que sair fugido desse lugar, passar aquela porta, tomar a rua e apressar o passo, não olhar para trás nem parar, mesmo que me gritasse. E se percebesse alguem atrás de mim, correria o quanto as pernas aguentassem. Seria agora, teria que tomar uma decisão, fiz menção de me erguer, porem havia me demorado demais em pensamentos indecisos, a moça estava de volta do banheiro. Parou à mesa onde estavam as amigas, deu umas palavrinhas rápidas, me olhando de lá e sorrindo, depois, dirigiu-se para onde eu estava. E eu estava pregado na cadeira cheio de pensamentos nefastos, cada um pior que outro, a fuga do bar sem pagar a conta, fugido, escondido, correndo pelas ruas escuras da noite como bandido.

Perdi a vontade de beber mais um pouco, de ficar naquele lugar, o tédio das pessoas, do bar, das ruas lá fora, do mundo, de mim, de tudo. O dinheiro que tinha também não seria suficiente para pagar mais uma cerveja. A moça chegou à mesa e eu sem saber que decisão tomar. Procurei me controlar do tédio para ela não perceber.

Propus-lhe sairmos daquele lugar, caminhando pelas ruas para nos conhecer melhor. Ela aceitou. “Talvez tenha encontrado a solução”, pensava, enquanto pagava a conta da cerveja e ela se despedia das amigas. Ela não tinha carro, e eu não conhecia nenhum taxista que fizesse uma corrida fiado. Fomos caminhando sem direção pelas ruas, não sei porque tomei o rumo de onde morava.

Talvez o hábito. Talvez algum sentido oculto. Ou mesmo o tédio me empurrando para casa, para meu mundo. Mas estava acompanhado e precisava me livrar da companhia. Não a convidei, nem sei se palavras intencionais falei, mas ela foi se conduzindo ou conduzida por um desejo que todo mundo conhece. Sem resistência e acho que sem convite, subiu ao oitavo andar para conhecer meu apartamento.

As vezes sem querer as coisas acontecem e a gente nem está preparado para quando essas coisas vierem acontecer. Foi assim. Ela não disse nada a respeito do prédio onde eu morava. Nem do pequeno apartamento. Nem da pacata mobilia. Estava mais interessada em outras coisas. Quando me lembrei que precisava de preservativo, já era tarde, ela não tinha, que vergonha! Eu também não. Mas, não podia deixar de acontecer. E aconteceu.



[…]



Depois de um dia de trabalho pesado, fui ajudar um amigo a levantar um muro no quintal de sua casa, trabalhamos o dia todo, até as dezenove horas. Cheguei a casa já passava das vinte e duas horas, cansado, as mãos, os braços e as pernas doendo; tomei um banho e cair no velho colchão de espuma para ser tomado pelo sono em poucos minutos. A situação continuava a mesma, pagava dois, três meses de aluguel e ficavam mais dois, ou três meses atrasados. A luz ainda era da gambiarra que havia feito, ninguém havia percebido, nem o vizinho nem a sindica. Não ia ficar no escuro, também não gastava muita luz, por isso não dava nem para desconfiar, e não dava muito prejuízo ao vizinho. O condomínio já havia perdido as contas dos meses atrasados. A sindica cansara de me cobrar, de cobrar à proprietária, as vezes ela pagava e me cobrava depois, quando tinha dinheiro lhe pagava junto com o aluguel. Porem já nem pensava muito nessas coisas, pois me eram aborrecedoras!



[…]



Alguem bateu à porta e pensei em que horas seriam ? O dia já estava claro. Já havia passado a noite ? Quando se está muito cansado a noite passa rápida, porque se deita e logo pega no sono, não há tempo para se pensar em bobagens, nem se acorda no meio da noite, a noite passa num sono único, tão rápida parece até que a noite ficou mais curta. Havia até esquecido qual dia era. Lembrei que era domingo. Domingo ? Por ser domingo era muito cedo para alguem bater à porta dos outros. Que horas seriam ? Não tinha relógio. Devia ser umas oito horas ? Oito e meia talvez! Insistiram a bater à porta. Seria a dona do apartamento para cobrar os alugueis atrasados ? Havia conversado com ela na sexta-feira, para não ficar preocupada, havia lhe dito; que quando conseguisse dinheiro ela seria a primeira pessoa que eu ia procurar para lhe pagar todos os atrasados. Sempre saía resmungando, mas acho que acreditava no que eu falava. O que queria uma hora dessa numa manhã de domingo ?

Mas poderia também ser a sindica! Essa mulher é chata! Não podia ser! O que ela queria comigo a essa hora da manhã de domingo ? Será que viera me cobrar os condomínios atrasados ? A semana inteira fala nisso! O prédio inteiro já sabe. Já falou para todos os condôminos que sou devedor. Não pode me ver que já vai falando. “o senhor precisa acertar as contas com o condomínio!” Terei que atender a porta ? E se não quiser atender ? Posso ficar aqui parado esperando que a pessoa bata a porta de novo até cansar e ir embora. Nesses momentos sempre aparecem os pensamentos terríveis. Quando se tem alguma culpa, se cometeu algum erro, parece que é o primeiro sentimento a se apresentar nesses momentos difíceis! “E se for o vizinho!” O vizinho ? Se ele descobriu a gambiarra que fiz na sua rede elétrica ? Estou consumindo a luz dele. Quanto tempo ele está pagando sem saber ? Mais umas batidas na porta e me pareceu mais forte.

“E se fingir que não estou ?” Não é possível que a pessoa derrube a porta. Tem ordem judicial ? Isso seria uma invasão. Não pode! Calma! Calma! Não deve ser o vizinho, ele não descobriu nada, a gambiarra que fiz foi bem feita. Ele nunca vai descobrir. Nem deve ser a sindica, se não já estaria gritando. Quem será então ? Ficarei quieto até a pessoa ir embora, ou abro essa porta ? Indecisão cruel!

Se tem que resolver o problema, que resolva-se logo. Vou atender e ver quem é. Caminhei até a porta e olhei pelo olho mágico. Esse olho está horrível, embaçado, não o limpo faz tempo e a proprietária não troca por um novo! Não dá para reconhecer a pessoa lá fora. Mas é uma moça. Quem será essa moça ? Será que não está batendo na porta errada ? Pode ser que tenha se enganado de apartamento. Ela está com alguma coisa nos braços. É uma criança que tem nos braços ? Será que bate na porta errada, numa hora dessa, num dia desse, manhã de domingo, me tirar da cama, e eu querendo dormir mais um pouco ? Vou abrir a porta e despachá-la, me livrar dessa moça e voltar para a cama.

Ela voltou a bater à porta e eu ainda indeciso. Olhei mais um pouco pelo olho magico. Já ia abrindo a porta quando de repente alguma coisa me fez parar e olhar de novo, me viera alguma lembrança do passado recente. Fiquei gelado e olhei com mais atenção, embora não desse para ver direito, pois a visão que o olho magico me dava era horrível, mas precisava ter certeza de quem era que estava batendo à minha porta. Apesar do esforço para reconhecer, o olho magico não possibilitava uma visão mais clara, porem algum sentido, se o sexto, se o sétimo, sei qual me dizia que a moça me trazia algum problema a mais para a minha vidinha pacata.

Não podia ser! Quase gritei. Murmurei desesperado por trás da porta, enquanto a moça no corredor já devia está quase desistindo. Ou não! Um horror passou pela minha cabeça: o preservativo! Voltei a olhar pelo olho magico para me certificar. Era ela! Tinha certeza. Mesmo não tendo uma visão tão nítida. E olhando para o apartamento pensei tristemente: não tenho nada na vida! Seis ou sete meses de condomínio atrasado. Três meses de aluguel. Luz cortada. Desempregado. Que faço ? Olhei para a janela. Seria um ótimo momento para fugir, me livraria dos aluguéis atrasados, dos condomínios e dessa moça. Se o andar que morava não fosse tão alto! Oitavo andar não dava para pular. Colocaria minhas roupas numa sacola de plástico de supermercado, pularia a janela e ganharia a rua, nunca mais aparecia nesse mundo. Oitavo andar! Fiquei repetindo essas palavras, pois esse era o problema, morar num andar alto. Se morasse no térreo, pelo menos no primeiro andar...

A moça insistiu batendo à porta. “Calma, deixa eu pensar no que fazer”. Pensei, murmurei, sei lá o que! Não havia outra saída se não abrir a porta e saber o que a moça queria. Teria que encarar a realidade. Abrir a porta com a cara de sono, disfarçando não reconhecê-la, tropeçando nas palavras. Fazia mais de um ano. Como poderia reconhecê-la. Como havia me encontrado ? Tivesse mudado de endereço! Era o que devia ter feito. “Arrependimento tardio não resolve os problemas dos erros cometidos no passado”. Fiquei imaginando enquanto ela falava. Queria assumir ou fazer o DNA ? Nem uma coisa nem outra. Por que não ? Não tenho dinheiro para fazer exame, nem para assumir. Não quis saber. Arrumasse um emprego. Se não teria que se ver com a justiça. Trouxe o bebê para mostrar-me. Conhecer o pai. Era a minha cara. Desconfiei que não fosse meu. Mas como saber ? Cara de bebê são todas iguais! Nem quis entrar. Só disse para que cuidasse em arrumar um emprego para pagar a pensão do filho.

O elevador chegou, abriu a porta e desceu. Fiquei boquiaberto, parado na porta sem saber no que pensar. Segunda-feira terei que sair para procurar emprego. A primeira coisa que me veio a cabeça. Já havia feito isso várias segundas, várias terças e quartas, e a semana toda, e os meses, mas nada havia conseguido. Meu filho! Finalmente me sentir como um pai. Fiquei tão estasiado que esqueci de lhe perguntar como faria para lhe ver de novo. Para ver o meu filho. Não sabia onde ela morava. Desci correndo pelas escadas para ver se ainda a alcançava, mas ela já havia deixado o prédio. Não sei se estava com tanta pressa, ou se ficou horrorizada com o que viu. Talvez tenha me demorado demais para abrir a porta. Para recebê-la. Depois que ela saiu quanto tempo fiquei ali parado na porta, a pensar em coisas tolas ? Agora não sabia o endereço dela, onde encontrá-la, nem mesmo o telefone havia me deixado.

Mas o impacto foi forte. Um filho que me aparece de repente. Ser pai numas condições de vida dessa que vivo! Subi as escadas de volta ao meu apartamento, com pensamentos nada nobre. Não saía da cabeça que eu não tinha nenhuma condição de assumir a paternidade dessa criança. Um filho! Era só o que me faltava! Voltei para a cama, ainda era cedo, as ruas da cidade ainda estavam silenciosas, favorecidas pelo dia que as pessoas tiram para descansar, e acordam mais tarde. Mas sono era algo totalmente distante de minha mente nesse momento.

Sentei-me a beira da cama, olhando fixo para as paredes, vários desenhos inúteis se mostravam sorrindo. Outros haviam percebido minha preocupação, aconselhavam-me a fugir. Fugir ? Fugir para onde ? Levantei-me, andei de cá para lá várias vezes a esmo pela casa. Cada vez que olhava para as paredes parecia que um desenho me dizia: foges! Foges! Ir para onde ? Arrisquei a pergunta tola, voz seca, no silencio da manhã de domingo, vindo de dentro de minha angustia. A cidade é grande! Qualquer coisa me respondera, uma voz qualquer, vindo de qualquer lugar. Parei no meio da sala. Qualquer pensão. Não era voz alguma, nem vinha de lugar nenhum, vinha do meu subconsciente. Uma vaga numa pensão! Um quarto numa casa de comodo.

Seria mesmo o melhor a fazer nesse momento ? Não podia assumir a paternidade daquela criança. Pelo menos nesse momento. Um dia quem sabe! Quem sabe um dia procuro por essa moça, para ver meu filho e assumir o meu erro. Não tinha nada para levar, algumas roupas, dois sapatos velhos e só. A velha mobília era do apartamento. Hoje era domingo, encontraria vaga nalguma pensão ? Abrir a carteira, o pouco dinheiro que havia ganhado na semana fazendo pequenos serviços, dava para pagar o aluguel de um mês numa vaga de uma pensão.

Sentei-me no chão da sala para refletir se valia a pena cometer esse ato. Saía do apartamento, com as roupas numa sacola, era tudo que tinha; fechava a porta do imóvel, deixava a chave com algum vizinho, ou jogava a chave no jardim, ganhava a rua e deixava tudo para trás, todos os problemas, os alugueis e condomínios atrasados, as gambiarras, uma moça que me aparece com um filho dizendo que é meu, e se meu for, quem mandou ela gerar esse filho. Naquela noite nem a convidei. Nem a forcei. Ela veio sem que eu exigisse. Nem pôs resistência a si mesma, mesmo vendo o meu mundo miserável. Me mando desse apartamento, desse mundo, e nunca mais sequer passo por essa rua...



“Caro leitor, essa historia é uma ficção, e, por assim ser, o personagem ainda não tomou uma decisão, se age conforme seu pensamento momentâneo, pega suas roupas e foge, desaparece, ou se permanece no apartamento, levando sua vidinha, fazendo pequenos serviços, procurando emprego e assume a paternidade do filho. Cada leitor terá sua visão e dará uma decisão final.”


OBRIGADO.



“Caro leitor, essa quarta parte é o final do conto, espero que tenha gostado, para quem leu as quatro partes, se não leu, leias as demais para melhor compreendê-lo.”


O TÉDIO”

4ª parte”

Autor: PEDRO ARUVAI





9 comentários:

claudete disse...

Caro amigo obrigada por sua visita e adesão. Gostei do seu conto, rs, apesar de longo retrata com fidelidade um cotidiano que se repete em cada esquina da vida, na minha visão comprometida com valores adquiridos ou não, em um contexto doméstico de um lar organizado enquanto familia , apesar das dificuldades , este filho seria um catalizador de mudanças de comportamento para ele.Fugir , como sempre vem fazendo não o fará encontrar-se nem será um determinante para um futuro , enfrentar os problemas sem subterfúgios a princípio poderia parecer difícil , mas seria a escolha correta. Com sou mais de fazer versos , não tenho como te ajudar a finalizar o conto, mas li todo !Abraços.

Sonia Pallone disse...

Oi meu querido... Te vi no Solidão de Alma entre meus seguidores e vim no teu rastro para conhecer seu espaço. Gostei do que vi e percebi uma preocupação feliz em postar o melhor. Um grande abraço, obrigada pelo olhar de ternura.

♫ ♪ Wilson ♫ ♪ disse...

Amigo,

percebi que tinha um novo seguidor e dei uma passadinha aqui pra conhecer seu blog.

Muito bom...gostei dos seus textos.
Te desejo um excelente final de semana.

Abraços e sigo-te também.

Luis Eustáquio Soares disse...

se o conto é o onto de um ponto que leva a outro, pronto, o seu é desse desponto, de um sistema de fugas deste besta e entediante mundo que produzimos, de ponto a ponto, tragicamente, burramente, violetamente.
saudações,
luuis de la mancha

Sylvia Rosa disse...

Passando pra desejar-lhe uma bona noite, e dizer que to sentindo sua falta... Esse tédio tem de passar...
Bjs

...EU VOU GRITAR PRA TODO MUNDO OUVIR... disse...

Gostei de seu conto:realista e sofrido como os brasileiros!!!

Parabéns!

Sonia Regina.

Pedro Aruvai disse...

obrigado a todos pelos comentários.

em breve novo texto.

Nas Asas da Poesia disse...

Coração humano
Único teatro que, sabidamente,
O proprietário não consegue fechar.

( Emily Dickinson )

Feliz Noite...Beijos no coração! M@ria

OBS: Seja meu seguidor (A)

J.P.S. disse...

obrigado a todos comentarios.