Contos, textos, ensaios... Pedro Aruvai

domingo, 12 de junho de 2011

Experiencias vividas


Experiencia – 1


Quando o pessoal da net veio me instalar um novo modem, o meu computador não conseguiu conectar-se com a rede, disse-me o moço que precisava instalar um driver de rede. Fiquei atônito, como? Se o meu PC era novo! Havia comprado-o há alguns dias! A fabricante não havia instalado o driver de rede. Supôs ele. O problema não podia ser este, porque já havia conectado o PC à rede antes, porem eu havia trocado o software do computador, e este me pareceu ser o problema. Havia comprado a maquina com o sistema Linux, mas havia instalado por conta própria o Windows.

O moço da net não me deu nenhuma informação, apenas me disse para levar o PC a um técnico para instalar o driver de rede. E eu, ainda com pouca experiencia em computador e internet, acatei o que me falou. Não sabia que o driver já estava instalado no PC, que bastava procurá-lo, reinstalá-lo ou atualizá-lo. O moço da net certamente sabia disso, mas nada me falou.

As pessoas que prestam serviços para as empresas não costumam ser muito amigáveis. Montadores de móveis, entregadores de lojas, instaladores de telefone enfim; geralmente são pessoas de empresas terceirizadas; hoje em dia, com essa onda de terceirização, a prestação de serviço ficou horrível, as vezes cobram caro, fazem o serviço de cara feia, mal feito e ainda querem gorjeta.

Parecem que trabalham sempre com má vontade, chegam com pressa, querem logo acabar o serviço e ir embora. Não costumam dá nenhuma informação a mais! Estão ali apenas para fazer o seu trabalho e ir embora. Tem suas razões, pois estão sendo pagas para fazer apenas a sua tarefa, o que incomoda entretanto nessas pessoas é o jeito arrogante de algumas e o tratamento despretensioso de atender o cliente, parece que elas sabem tudo e somente elas devem saber. Poderiam ter me dado pelo menos umas dicas, de como fazer para atualizar o driver de rede.

Mas nada me falaram, fizeram seu serviço apressado, rasgando caixas, cortando fios e em poucos minutos pediram-me para assinar a papelada, estava pronto o serviço que vieram fazer; assinei os papeis e foram embora, e eu fiquei com o PC ligado a rede mais sem conexão. No dia seguinte levei o PC ao técnico e para esse trabalhinho simples, sem muito esforço, o técnico me cobrou trinta reais (30,00).

Um trabalho tão simples que nem é preciso abrir o computador, mas isto descobrir depois, quando deu problema no sistema e precisei reinstalá-lo, logo lembrei que seria necessário instalar o driver de rede para conectá-lo à internet. Mas desta vez não precisei levar o PC novamente ao técnico.

Nessa altura já havia ganho umas experiencias para saber que não seria necessário pedir para ninguém instalar o driver de rede, pois ele já estava instalado no PC, bastava procurá-lo e atualizá-lo. Assim o fiz e nunca mais levei o PC a técnico nenhum para uma simples instalação de driver de rede. Aqui vai a dica para quem interessar, não é tarefa muito simples, mas com um pouco de paciência qualquer pessoa pode realizá-la. Se seu PC não se conecta com a rede e se o problema for driver de rede, siga esta dica.*

Experiencia – 2


Outra vez o computador não conectava à rede, mas dessa vez o problema não era driver, a porta de entrada do cabo de rede havia pifado. Como saber? O modem ligado não dava sinal, seria problema no modem? Testei o modem em outro PC e estava bom, o problema seria no PC. Embora o computador funcionasse normalmente, não dava sinal de conexão de rede, então o problema só podia ser na entrada da conexão.

Desconectei cabo, reconectei, troquei o cabo por outro e nada de sinal, não havia conexão. A porta de entrada de rede havia pifado. Mas como isto acontecera? Não havia feito nada de anormal! Equipamentos eletrônicos é assim mesmo, pode está funcionando maravilhosamente bem, mas ao ser desligado e quando tentar ligá-lo outra vez, não funciona mais. Fora isto o que havia acontecido. Levar o PC para consertar? Ora, se o técnico me cobrara trinta reais para instalar um driver de rede, algo simples, quanto não me cobraria para instalar uma porta de entrada de cabo de rede? Teria que abrir a maquina, pagar pelo seu trabalho e pela peça, não sairia por menos de oitenta reais. O PC não era velho, mas não queria mandar consertá-lo, alem do mais, nunca gostei de equipamento consertado. Ficaria sem internet até poder comprar um PC novo.

Mas algo me dizia que havia uma solução a este problema. Como? Bem, o pessoal que instalou a net havia me deixado o CD de instalação do modem, ora, lendo o manual pude ver que o modem funcionava também pela entrada USB. Se o manual informava e se o aparelho tinha entrada de cabo USB, logo esse recurso podia ser usado.

Pois bem, coloquei o CD no driver e instalei um cabo USB do PC ao modem, e, claro, seguindo o manual, depois de muito trabalho e insistência, conseguir finalmente conectar o PC com a rede pelo USB. Ora, se o PC tem várias entradas USB, se o modem oferece essa opção, e se a conexão PC rede pela porta USB é igual a outra; então para que pagar para instalar uma nova porta de entrada de rede? Me livrei de gastar uma grana sem necessidade. Se isto acontecer ao seu PC, se o problema é na entrada do cabo de rede, use o USB para conectar-se a internet, pois funciona normalmente.

“Portanto, quando o seu PC der algum problema, antes de chamar um técnico ou levá-lo a uma autorizada, primeiro der uma mexida nele. As vezes são coisas simples, um simples driver que não funciona naquele momento, ou precisa ser atualizado; as vezes basta desligá-lo e religá-lo de novo, ou tirar a tomada da força, desconectá-lo da rede, fazer uma limpeza excluindo velhos arquivos e etc. Mas, se não for possível consertá-lo e ter que levá-lo ao técnico, não acredite em tudo que ele fala, porque muitos técnicos costumam ver as pessoas de “burras”, por causa de um simples problema no PC, se desespera, esquenta a cabeça; mas ele, o técnico, está acostumado com esses equipamentos, é o seu trabalho, não fazem outra coisa, todos os dias; a pessoa não, e mesmo assim, costumam se aproveitar da situação, quanto mais percebe que a pessoa não entende nada, e mais desesperada; tratam a pessoa como ignorante, e ainda abusam no custo do conserto, cobrando acima do merecido -claro, não são todos os técnicos que agem dessa forma- mas é bom ficar atenta.


*DICAS PARA INSTALAÇÃO DE DRIVER DE REDE:


PRIMEIRO CLIC EM: Iniciar> DEPOIS CLIC EM: Painel de controle> EM SEGUIDA CLIC EM: desempenho e manutenção> DEPOIS CLIC EM: Sistema> DEPOIS CLIC EM: hardware> DEPOIS CLIC EM: gerenciador de dispositivos> AGORA É SÓ PROCURAR POR: adaptador de rede, AO ENCONTRÁ-LO, CLIC COM O BOTÃO DIREITO DO MOUSE EM propriedades, A PARTIR DAÍ, SIGA O QUE PEDE O PC, QUE SÃO: reinstalar driver OU atualizar driver, IMPORTANTE: indique o caminho (a pasta) onde se encontra o driver. O resto o computador fará sozinho, e depois é só reiniciá-lo.


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segunda-feira, 2 de maio de 2011

MAIO ME FEZ LEMBRAR OS INVERNOS.



Maio chegou e a chuva que caiu na manhã lembrou-me o inverno.

O inverno na fazenda!

Lembrou-me o campo.

As folhas molhadas das plantas.

O cheiro da terra subindo as narinas.

Lembrou-me a chegada do inverno, quando se via a paisagem do campo mudando.

Moradores da fazenda marcavam roçados.

O mato era roçado com foice.

Mato roçado era encoivarado.

O mato secava se ateava fogo nas coivaras.

O fogo queimava o mato e no lugar que o mato era queimado, a terra ficava preta.

Era tempo de se plantar as sementes na terra!

Aí se plantava sementes de jerimuns e de maxixis.

A terra ficava mais nutrida no lugar que o mato era queimado.

As plantas nascidas nesse lugar cresciam mais que as outras.

Cresciam mais bonitas!

As folhas eram mais viçosas!

As ramas do jerimunzeiro se espalhavam, com suas folhas arredondadas e grandes.

O maxixeiro também espalhava suas ramas.

Plantava-se sementes de quiabo nos aceiros do roçado.

Fazia-se as covas com a enxada, jogava-se as sementes nas covas cavadas e fechava a terra com os pés.

As covas para se plantar as sementes do milho eram mais fundas.

Junto às sementes de milho se plantava sementes de favas.

No meio das carreiras de milho se plantava sementes de feijão.

No meio das carreiras de feijão se plantava sementes de algodão.

E todas sementes nasciam felizes!

Misturadas e tão diferentes!

Era bonito ver a terra rachando e as sementes brotando.

Formigas haviam aos montes!

Construíam formigueiros enormes!

O mato florava e havia uma enormidades de flores, o campo ficava colorido e as flores dançavam ao passo do vento, que passava rasteiro, brincando com as folhas e carregando das flores seu perfume misterioso.

Passarinhos cantavam se escondendo no mato.

O cardeiro florava, uma flor gigante e linda.

A flor do cardeiro parecia um fruto!

Mas não se podia tirá-la, estava protegida pelos enormes espinhos.

As vezes o rio enchia.

Riachos, córregos e poços.

Quando a chuva era mais forte!

Quando o rio secava ficavam poços fundos e bancos de areia.

Nos poços os peixes ficavam presos.

Nos bancos de areia crianças brincavam, enquanto as mães batiam roupas nas pedras.

Nos roçados as plantas cresciam.

O feijão já florava.

Pequenas vagem vingavam quando as flores caiam.

Insetos apareciam aos montes.

De todas as cores e todo tamanho.

As vagens cresciam até que chegava o tempo de colhê-las.

O milharal brotava pendões e pequenas bonecas.

O algodoeiro era o ultimo a florar.

Flores grandes e bonitas, amarelas e vermelhas.

Colhia-se o milho verde, algumas espigas deixava-se para secar, e dobrava-se os pés para a fava mais se encorpar.

A fava crescia se enramando sobre os pés do milharal com suas folhas grandes, depois flores, depois vagens.

E quando chegava o tempo da colheita do algodão, as plantas já estavam quase todas amareladas, já havia sido feita quase toda a colheita do roçado; agora se embranquecia, era o algodoeiro abrindo seus capuchos.

Corria-se ao roçado para colhê-lo.

Chegava-se ao fim o circulo das colheitas.

O inverno havia chegado ao fim.

Sementes eram guardadas em latas e garrafas de vidros, tampadas com cuidado para não dá bicho, pois seriam as sementes que seriam plantadas no inverno do ano seguinte.

Outro inverno se esperava.

Porque o inverno era a estação mais importante do ano!



"MAIO ME FEZ LEMBRAR OS INVERNOS."

Autor: PEDRO ARUVAI

[02 de maio de 2011]

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Historia de um homem desiludido




Vou lhe contar, meu amigo, coisas que não confesso para ninguém, conto-lhe porque em você eu posso confiar, embora não lhe conheça, talvez por isso, irás me compreender. Ouve-me sem repudiar-me, as mazelas de minha vida nesse mundo.

Ele disse:

Nasceu pobre. Teve infância pobre. Cresceu pobre. Viveu pobre a vida toda.

As pessoas dependiam de três tipos de destinos nesse mundo, me disse ele, as bem escolhidas pelo destino, aquelas que tiverem a sorte de nascerem bem de vida, são as pessoas geradas no útero de uma mãe rica.

O segundo tipo são aquelas que até nascem pobre, o destino a escolheu a ser gerada num útero de uma mãe pobre, mas lhe dar a sorte de encontrar a fortuna no futuro.

Mas tem o terceiro tipo de pessoas, coitadas; essas nascem pobre e o destino não lhe reserva nenhum pouquinho de sorte, não lhe prepara nenhuma pequena fortuna, nem mesmo a da beleza, da coragem, da determinação, da força; simplesmente lhe priva de tudo, tornando um ser covarde e amargurado, triste e mal amado, um ser quase inútil nesse mundo.

Dizem que todo mundo tem seu valor. Será ? Uma pessoa que nasce para ser apenas um ser, viver uma vida miserável, de muita luta, angustia e sofrimento, e morrer sem nada ser, qual é o seu valor nesse mundo ?

Esse fora o seu destino. O mundo para ele era assim, lutara feito um escravo, trabalhara muito para conseguir uma vida melhor, mas infelizmente nunca conseguira nada.

Amor, nunca teve.

Filhos, também não.

Havia a esperança de conseguir uma vida melhor, para daí começar a cuidar da vida amorosa, uma esposa, uns filhos, construir uma família. Mas a vida nunca melhorou. A sorte nunca lhe sorriu. O destino sempre lhe virou as costas à fortuna, e sempre lhe mostrou as coisas horríveis, sempre lhe fora muito cruel.

Jogara a vida inteira na loteria. Não precisava ficar rico. Ganhar uma fortuna. Apenas um prêmio qualquer, que lhe desse uma vida digna. Nunca conseguira ganhar nada!

O tempo passou, envelheceu, as doenças tomavam-lhe conta, a velhice lhe castigava, as esperanças diminuíam, a realidade era triste e funesta.

Desistira de tudo!

Não pensava mais em amor, como sempre pensou, uma esposa, uma família, uns filhos; estava no fim da vida, ainda pobre, já velho, estava tudo acabado. Seria mais um ser inútil nesse mundo entre os homens, que atravessara a curta caminhada nesse mundo sofrendo.

Havia desistido de tudo. Amor, casar, filhos, construir família, melhorar de vida; vivia amargurado, triste, revoltado, raivoso consigo mesmo, por ser um traste inútil que nada conseguira na vida. Agora nessa idade, não havia mais nada a esperar. Nem queria mais! Estava decidido, era assim que o destino queria que ele vivesse até o fim da vida, pois tudo bem, estava entregue a ele, era assim que viveria até morrer.

Mas um dia, não sabia como, bateu-lhe a vontade de fazer um jogo na loteria. Dessas vontades que aparecem do nada.

Já havia muito tempo que não jogava mais. Deixara de lado, esse negócio de jogo era para quem havia nascido com sorte. Ele não fora um ser escolhido. Depois de muito tempo sem entrar numa lotérica, não sabia por que estava entrando outra vez para fazer um jogo. Levado sabe lá por qual impulso. Nem pensava em ganhar. Era o ultimo dinheiro que tinha no bolso, de sua miserável aposentadoria. Fez o jogo e foi para casa, e deixou o bilhete num canto esquecido.

Sempre se preocupava em conferir os bilhetes jogados, quando era moço e jogava toda semana, mas nunca ganhou nada. Dessa vez nem lembrou de conferir.

Depois de algumas semanas, ouviu nos noticiários que alguem havia ganhado na loteria e não fora buscar o prêmio. A lotérica, onde havia sido registrado o bilhete premiado, era aquela onde ele havia feito a aposta.

Pensou em procurar o bilhete, mas não lembrava mais onde havia deixado-o. Estava em algum lugar da casa. Procurou pelas gavetas, por onde costumava guardar essas coisas, não encontrou e desistiu. Já havia Jogado tantas vezes e nunca havia ganhado nada, por que a sorte teria lhe sorrido agora ?

Mas nos noticiários se repetia a notícia, todos os dias, a pessoa não tinha ido ainda buscar o seu prêmio, era uma boa quantia, coisa de milhões.

Nem teve o trabalho de procurar o bilhete outra vez. Primeiro porque não era o premiado, depois se fosse, para que queria fortuna agora ? Para que se tornar rico nessa idade ? Agora que já estava velho, e não podia mais viver as delicias da vida ? Do amor! Qual moça queria casar-se com um velho como ele ? Mesmo rico! Se quisesse, seria por interesse, casar-se-ia com ele pelo dinheiro. Não tinha mais idade para dá prazeres a uma mulher. Não prestava mais para nada! Nem filho podia mais gerar. Não queria ser tratado como um velho tolo. Sempre fora um ser inútil quando pobre, e agora rico, continuaria a ser um inútil. Rico ? Mas não sabia se seu bilhete foi o premiado!

Melhor nem procurar o bilhete, se o encontrasse e não fosse o premiado, ficaria mais zangado. Mas se fosse o premiado, ficaria mais zangado ainda. Por que ser rico agora ? Um velho inútil que mal podia carregar as pernas ?

Teve tanta raiva nessa hora que teve vontade de se matar. Pensou nisso. Mas o destino quanto dá para ser cruel com a pessoa, ele o é, era tão cruel que não lhe dera nem coragem para se matar, porque se tivesse, teria se matado.

Tentou esquecer esse bilhete. Mas os noticiários continuavam informando que o ganhador ainda não havia aparecido para receber seu premio. Que havia acontecido com ele ? Perdera o bilhete ? Havia morrido ?

Se tivesse força de homem jovem nessa hora teria pegado a televisão e jogado pela janela, de tão furioso que ficava, só em ouvir essa notícia, e nem sabia que ele era o ganhador. Mas como saber se nem havia conferido o bilhete ? Conferir para que ? Se nunca havia ganhado nada! Não queria sofrer mais que já havia sofrido, ficar mais irado que já ficava, se encontrasse o maldito do bilhete e não fosse ele o premiado. E certamente ficaria ainda mais furioso se o bilhete fosse o premiado.

Havia anotado num papel os números sorteados, que os noticiários repetiam. Nem sabia se havia anotado os números direito, pois eram sempre muito rápidos quando falavam os números, e não dava tempo para anotá-los todos direito. Mas não queria conferi-los.

Um dia comprou meio quilo de peixe para fazer seu almoço, o vendedor embrulhou o pescado num pedaço de jornal velho. Chegou em casa, desembrulho as sardinhas e já ia amassando o papel para jogar no lixo, quando algo escrito no jornal chamou-lhe atenção. Era uma matéria sobre o premio da loteria que o apostador não havia ido buscar.

Notícia velha, papel todo amassado, um pouco molhado pelo produto que havia embrulhado, letras difíceis de ler, mas passando os olhos cansados, e curiosos, sobre as pequenas letras, foi lendo devagar, e leu tudo o que estava escrito no papel. No final da matéria, estavam lá os números sorteados.

Já ia amassando o papel para jogá-lo no lixo, quando lembrou em conferir os números que havia anotado, com os números que estavam escritos no jornal, para ver se eram os mesmos, se havia anotado os números certos. Procurou e encontrou o papel numa gaveta com os números, conferiu e os números estavam certos, faltava encontrar o bilhete. Teria que procurá-lo e encontrá-lo, se quisesse acabar com essa duvida. Onde havia deixado ? Será que havia jogado no lixo ?

Ficou por uns minutos procurando na memoria se lembrar, onde havia deixado aquele bilhete, mas era um homem já velho, não tinha mais uma boa memória. Amassou o pedaço de jornal e jogou no lixo, e foi limpar as sardinhas e prepará-las para fritá-las. De repente uma vaga lembrança passou-lhe pela mente de onde havia deixado o bilhete naquele dia quando chegou em casa.

Havia deixado ao lado da televisão, será que havia caído atrás do móvel ? Havia varrido por trás do móvel depois daquele dia ? Jogara o bilhete no lixo ? Foi a sala, olhou por trás do móvel onde estava a televisão e não viu nada, apenas fios empoeirados. Quando já ia desistindo, percebeu que por baixa da televisão havia uma coisa branca, como um papel, um pedacinho de nada, se destacando para fora. Tentou puxar e não conseguiu. Estava com as unhas curtas. Procurou alguma coisa fina por ali para puxar e não encontrou. Reuniu suas forças e ergueu um pouco a televisão e percebeu que se tratava do bilhete da loteria.

Soprou e o bilhete caiu no chão. Largou a televisão no lugar e pegou o bilhete. Sabia como o bilhete fora parar debaixo da televisão. O ventilador ligado tinha soprado o bilhete e o escondido. Como não estava ligando muito para esse bilhete, nem havia se preocupado.

Mas agora estava com ele nas mãos. Conferi-lo ou ir preparar o almoço ? Ia cuidar do almoço, não tinha pressa para ter raiva. Enquanto preparava o almoço, pensou diversas vezes em parar tudo e ir conferir o bilhete. Mas não fez isso, controlou-se, queria evitar ficar irado antes de almoçar. Mas a curiosidade foi tomando conta de seu ser, instigando-lhe, e crescia como uma coisa angustiante.

Acabou de preparar o almoço e ainda aguentou almoçar. A comida não descia bem. O almoço estava uma droga, tudo por causa daquele maldito bilhete. Deixou a mesa antes de terminar o almoço, não queria comer mais nada, foi conferir o bilhete. Não estava aguentando mais tanta ansiedade. Pegou o bilhete e o papel com os números... seria melhor esquecer isso, rasgar em pedacinhos e jogar essa droga no lixo.

Se o bilhete for o premiado, que vai adiantar ? Que vai aproveitar desse dinheiro ? Ficar rico agora, no final da vida ? Mas se não for o premiado, depois de toda essa aflição ?...

Sentou-se para não cair, sentiu tontura de tanta ansiedade. Seria muito pior quando conferisse aquele bilhete. Será que ia aguentar ? De uma raiva ou de outra. Certamente seria tomado pela fúria, pela ira. Largou o bilhete e o papel com os números e foi caminhar pela rua, passando em frente a lotérica, resolveu entrar, não para jogar, nunca mais jogaria; mas para perguntar sobre o prêmio, se o apostador já havia aparecido.

Torcia para que isso já tivesse acontecido, assim sabia que o ganhador não seria ele e nem precisava conferir aquele bilhete. Mas infelizmente a moça do caixa respondeu que não. Até sorriu, ao perguntar se era ele o ganhador. Respondeu que não. E saiu da lotérica furioso. Irado. Com vontade de quebrar tudo que via pela frente. Mas já era um velho e pior, sem força e sem coragem para praticar essas coisas.

Chegou em casa deitou-se, dormiu, acordou e foi conferir o bilhete. Conferiu numero por numero, e todos os números que havia anotado eram iguais aos números do bilhete. No primeiro momento não sentiu nada. Conferiu tudo de novo, não havia errado, os números eram os mesmos. Era o bilhete premiado. Conferiu de novo até que teve certeza.

Levantou-se de onde estava sentado e foi possuído por um excesso de fúria. Para que queria essa droga agora ? Ficar rico agora para que ? Começou a maldizer da sua sorte e do seu destino, maldita era a sua sorte! Por que não lhe dera essa fortuna a sessenta anos atrás ? Vivera a vida toda inutilmente. Sofrera como um cão, gastou toda sua energia de homem jovem como um ser miserável. Agora que não tinha mais força, que não servia mais para nada, a sorte lhe dava a fortuna.

Não queria mais fortuna nenhuma! Nascera miserável, vivera a vida toda inutilmente, assim morreria. Começou a quebrar tudo que tinha dentro de casa, irado, furioso, passou a vida toda querendo um pouquinho de dinheiro para viver uma vida digna, apenas isto, nada mais que isto! Não queria ser rico, apenas viver dignamente como um cidadão de bem. Não conseguira, e agora que já estava no fim da vida, a riqueza lhe aparecia... para que ?

Tomado pela ira, quebrou quase tudo que pode dentro de casa, e nessa fúria bestial, se feriu, mas a raiva não parou por aí, resolveu atear fogo na casa e ir morar na rua. Agora era um morador de rua.

Ninguém da vizinhança havia entendido porque ele havia feito aquilo. Somente ele sabia a sua dor. Há coisas que não precisam explicações. Mas elas estão aí nos olhos de todo mundo, só não ver quem não quer ver.

Fiquei sem saber o que dizer a esse sujeito, resolvi escrever essa historia triste como uma homenagem aos homens desiludidos desse mundo.



"HISTORIA DE UM HOMEM DESILUDIDO"

autor: PEDRO ARUVAI
25 de fevereiro de 2011


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O tédio - 4

O TÉDIO - 4

[…]



Não havia outra saída, teria que sair fugido desse lugar, passar aquela porta, tomar a rua e apressar o passo, não olhar para trás nem parar, mesmo que me gritasse. E se percebesse alguem atrás de mim, correria o quanto as pernas aguentassem. Seria agora, teria que tomar uma decisão, fiz menção de me erguer, porem havia me demorado demais em pensamentos indecisos, a moça estava de volta do banheiro. Parou à mesa onde estavam as amigas, deu umas palavrinhas rápidas, me olhando de lá e sorrindo, depois, dirigiu-se para onde eu estava. E eu estava pregado na cadeira cheio de pensamentos nefastos, cada um pior que outro, a fuga do bar sem pagar a conta, fugido, escondido, correndo pelas ruas escuras da noite como bandido.

Perdi a vontade de beber mais um pouco, de ficar naquele lugar, o tédio das pessoas, do bar, das ruas lá fora, do mundo, de mim, de tudo. O dinheiro que tinha também não seria suficiente para pagar mais uma cerveja. A moça chegou à mesa e eu sem saber que decisão tomar. Procurei me controlar do tédio para ela não perceber.

Propus-lhe sairmos daquele lugar, caminhando pelas ruas para nos conhecer melhor. Ela aceitou. “Talvez tenha encontrado a solução”, pensava, enquanto pagava a conta da cerveja e ela se despedia das amigas. Ela não tinha carro, e eu não conhecia nenhum taxista que fizesse uma corrida fiado. Fomos caminhando sem direção pelas ruas, não sei porque tomei o rumo de onde morava.

Talvez o hábito. Talvez algum sentido oculto. Ou mesmo o tédio me empurrando para casa, para meu mundo. Mas estava acompanhado e precisava me livrar da companhia. Não a convidei, nem sei se palavras intencionais falei, mas ela foi se conduzindo ou conduzida por um desejo que todo mundo conhece. Sem resistência e acho que sem convite, subiu ao oitavo andar para conhecer meu apartamento.

As vezes sem querer as coisas acontecem e a gente nem está preparado para quando essas coisas vierem acontecer. Foi assim. Ela não disse nada a respeito do prédio onde eu morava. Nem do pequeno apartamento. Nem da pacata mobilia. Estava mais interessada em outras coisas. Quando me lembrei que precisava de preservativo, já era tarde, ela não tinha, que vergonha! Eu também não. Mas, não podia deixar de acontecer. E aconteceu.



[…]



Depois de um dia de trabalho pesado, fui ajudar um amigo a levantar um muro no quintal de sua casa, trabalhamos o dia todo, até as dezenove horas. Cheguei a casa já passava das vinte e duas horas, cansado, as mãos, os braços e as pernas doendo; tomei um banho e cair no velho colchão de espuma para ser tomado pelo sono em poucos minutos. A situação continuava a mesma, pagava dois, três meses de aluguel e ficavam mais dois, ou três meses atrasados. A luz ainda era da gambiarra que havia feito, ninguém havia percebido, nem o vizinho nem a sindica. Não ia ficar no escuro, também não gastava muita luz, por isso não dava nem para desconfiar, e não dava muito prejuízo ao vizinho. O condomínio já havia perdido as contas dos meses atrasados. A sindica cansara de me cobrar, de cobrar à proprietária, as vezes ela pagava e me cobrava depois, quando tinha dinheiro lhe pagava junto com o aluguel. Porem já nem pensava muito nessas coisas, pois me eram aborrecedoras!



[…]



Alguem bateu à porta e pensei em que horas seriam ? O dia já estava claro. Já havia passado a noite ? Quando se está muito cansado a noite passa rápida, porque se deita e logo pega no sono, não há tempo para se pensar em bobagens, nem se acorda no meio da noite, a noite passa num sono único, tão rápida parece até que a noite ficou mais curta. Havia até esquecido qual dia era. Lembrei que era domingo. Domingo ? Por ser domingo era muito cedo para alguem bater à porta dos outros. Que horas seriam ? Não tinha relógio. Devia ser umas oito horas ? Oito e meia talvez! Insistiram a bater à porta. Seria a dona do apartamento para cobrar os alugueis atrasados ? Havia conversado com ela na sexta-feira, para não ficar preocupada, havia lhe dito; que quando conseguisse dinheiro ela seria a primeira pessoa que eu ia procurar para lhe pagar todos os atrasados. Sempre saía resmungando, mas acho que acreditava no que eu falava. O que queria uma hora dessa numa manhã de domingo ?

Mas poderia também ser a sindica! Essa mulher é chata! Não podia ser! O que ela queria comigo a essa hora da manhã de domingo ? Será que viera me cobrar os condomínios atrasados ? A semana inteira fala nisso! O prédio inteiro já sabe. Já falou para todos os condôminos que sou devedor. Não pode me ver que já vai falando. “o senhor precisa acertar as contas com o condomínio!” Terei que atender a porta ? E se não quiser atender ? Posso ficar aqui parado esperando que a pessoa bata a porta de novo até cansar e ir embora. Nesses momentos sempre aparecem os pensamentos terríveis. Quando se tem alguma culpa, se cometeu algum erro, parece que é o primeiro sentimento a se apresentar nesses momentos difíceis! “E se for o vizinho!” O vizinho ? Se ele descobriu a gambiarra que fiz na sua rede elétrica ? Estou consumindo a luz dele. Quanto tempo ele está pagando sem saber ? Mais umas batidas na porta e me pareceu mais forte.

“E se fingir que não estou ?” Não é possível que a pessoa derrube a porta. Tem ordem judicial ? Isso seria uma invasão. Não pode! Calma! Calma! Não deve ser o vizinho, ele não descobriu nada, a gambiarra que fiz foi bem feita. Ele nunca vai descobrir. Nem deve ser a sindica, se não já estaria gritando. Quem será então ? Ficarei quieto até a pessoa ir embora, ou abro essa porta ? Indecisão cruel!

Se tem que resolver o problema, que resolva-se logo. Vou atender e ver quem é. Caminhei até a porta e olhei pelo olho mágico. Esse olho está horrível, embaçado, não o limpo faz tempo e a proprietária não troca por um novo! Não dá para reconhecer a pessoa lá fora. Mas é uma moça. Quem será essa moça ? Será que não está batendo na porta errada ? Pode ser que tenha se enganado de apartamento. Ela está com alguma coisa nos braços. É uma criança que tem nos braços ? Será que bate na porta errada, numa hora dessa, num dia desse, manhã de domingo, me tirar da cama, e eu querendo dormir mais um pouco ? Vou abrir a porta e despachá-la, me livrar dessa moça e voltar para a cama.

Ela voltou a bater à porta e eu ainda indeciso. Olhei mais um pouco pelo olho magico. Já ia abrindo a porta quando de repente alguma coisa me fez parar e olhar de novo, me viera alguma lembrança do passado recente. Fiquei gelado e olhei com mais atenção, embora não desse para ver direito, pois a visão que o olho magico me dava era horrível, mas precisava ter certeza de quem era que estava batendo à minha porta. Apesar do esforço para reconhecer, o olho magico não possibilitava uma visão mais clara, porem algum sentido, se o sexto, se o sétimo, sei qual me dizia que a moça me trazia algum problema a mais para a minha vidinha pacata.

Não podia ser! Quase gritei. Murmurei desesperado por trás da porta, enquanto a moça no corredor já devia está quase desistindo. Ou não! Um horror passou pela minha cabeça: o preservativo! Voltei a olhar pelo olho magico para me certificar. Era ela! Tinha certeza. Mesmo não tendo uma visão tão nítida. E olhando para o apartamento pensei tristemente: não tenho nada na vida! Seis ou sete meses de condomínio atrasado. Três meses de aluguel. Luz cortada. Desempregado. Que faço ? Olhei para a janela. Seria um ótimo momento para fugir, me livraria dos aluguéis atrasados, dos condomínios e dessa moça. Se o andar que morava não fosse tão alto! Oitavo andar não dava para pular. Colocaria minhas roupas numa sacola de plástico de supermercado, pularia a janela e ganharia a rua, nunca mais aparecia nesse mundo. Oitavo andar! Fiquei repetindo essas palavras, pois esse era o problema, morar num andar alto. Se morasse no térreo, pelo menos no primeiro andar...

A moça insistiu batendo à porta. “Calma, deixa eu pensar no que fazer”. Pensei, murmurei, sei lá o que! Não havia outra saída se não abrir a porta e saber o que a moça queria. Teria que encarar a realidade. Abrir a porta com a cara de sono, disfarçando não reconhecê-la, tropeçando nas palavras. Fazia mais de um ano. Como poderia reconhecê-la. Como havia me encontrado ? Tivesse mudado de endereço! Era o que devia ter feito. “Arrependimento tardio não resolve os problemas dos erros cometidos no passado”. Fiquei imaginando enquanto ela falava. Queria assumir ou fazer o DNA ? Nem uma coisa nem outra. Por que não ? Não tenho dinheiro para fazer exame, nem para assumir. Não quis saber. Arrumasse um emprego. Se não teria que se ver com a justiça. Trouxe o bebê para mostrar-me. Conhecer o pai. Era a minha cara. Desconfiei que não fosse meu. Mas como saber ? Cara de bebê são todas iguais! Nem quis entrar. Só disse para que cuidasse em arrumar um emprego para pagar a pensão do filho.

O elevador chegou, abriu a porta e desceu. Fiquei boquiaberto, parado na porta sem saber no que pensar. Segunda-feira terei que sair para procurar emprego. A primeira coisa que me veio a cabeça. Já havia feito isso várias segundas, várias terças e quartas, e a semana toda, e os meses, mas nada havia conseguido. Meu filho! Finalmente me sentir como um pai. Fiquei tão estasiado que esqueci de lhe perguntar como faria para lhe ver de novo. Para ver o meu filho. Não sabia onde ela morava. Desci correndo pelas escadas para ver se ainda a alcançava, mas ela já havia deixado o prédio. Não sei se estava com tanta pressa, ou se ficou horrorizada com o que viu. Talvez tenha me demorado demais para abrir a porta. Para recebê-la. Depois que ela saiu quanto tempo fiquei ali parado na porta, a pensar em coisas tolas ? Agora não sabia o endereço dela, onde encontrá-la, nem mesmo o telefone havia me deixado.

Mas o impacto foi forte. Um filho que me aparece de repente. Ser pai numas condições de vida dessa que vivo! Subi as escadas de volta ao meu apartamento, com pensamentos nada nobre. Não saía da cabeça que eu não tinha nenhuma condição de assumir a paternidade dessa criança. Um filho! Era só o que me faltava! Voltei para a cama, ainda era cedo, as ruas da cidade ainda estavam silenciosas, favorecidas pelo dia que as pessoas tiram para descansar, e acordam mais tarde. Mas sono era algo totalmente distante de minha mente nesse momento.

Sentei-me a beira da cama, olhando fixo para as paredes, vários desenhos inúteis se mostravam sorrindo. Outros haviam percebido minha preocupação, aconselhavam-me a fugir. Fugir ? Fugir para onde ? Levantei-me, andei de cá para lá várias vezes a esmo pela casa. Cada vez que olhava para as paredes parecia que um desenho me dizia: foges! Foges! Ir para onde ? Arrisquei a pergunta tola, voz seca, no silencio da manhã de domingo, vindo de dentro de minha angustia. A cidade é grande! Qualquer coisa me respondera, uma voz qualquer, vindo de qualquer lugar. Parei no meio da sala. Qualquer pensão. Não era voz alguma, nem vinha de lugar nenhum, vinha do meu subconsciente. Uma vaga numa pensão! Um quarto numa casa de comodo.

Seria mesmo o melhor a fazer nesse momento ? Não podia assumir a paternidade daquela criança. Pelo menos nesse momento. Um dia quem sabe! Quem sabe um dia procuro por essa moça, para ver meu filho e assumir o meu erro. Não tinha nada para levar, algumas roupas, dois sapatos velhos e só. A velha mobília era do apartamento. Hoje era domingo, encontraria vaga nalguma pensão ? Abrir a carteira, o pouco dinheiro que havia ganhado na semana fazendo pequenos serviços, dava para pagar o aluguel de um mês numa vaga de uma pensão.

Sentei-me no chão da sala para refletir se valia a pena cometer esse ato. Saía do apartamento, com as roupas numa sacola, era tudo que tinha; fechava a porta do imóvel, deixava a chave com algum vizinho, ou jogava a chave no jardim, ganhava a rua e deixava tudo para trás, todos os problemas, os alugueis e condomínios atrasados, as gambiarras, uma moça que me aparece com um filho dizendo que é meu, e se meu for, quem mandou ela gerar esse filho. Naquela noite nem a convidei. Nem a forcei. Ela veio sem que eu exigisse. Nem pôs resistência a si mesma, mesmo vendo o meu mundo miserável. Me mando desse apartamento, desse mundo, e nunca mais sequer passo por essa rua...



“Caro leitor, essa historia é uma ficção, e, por assim ser, o personagem ainda não tomou uma decisão, se age conforme seu pensamento momentâneo, pega suas roupas e foge, desaparece, ou se permanece no apartamento, levando sua vidinha, fazendo pequenos serviços, procurando emprego e assume a paternidade do filho. Cada leitor terá sua visão e dará uma decisão final.”


OBRIGADO.



“Caro leitor, essa quarta parte é o final do conto, espero que tenha gostado, para quem leu as quatro partes, se não leu, leias as demais para melhor compreendê-lo.”


O TÉDIO”

4ª parte”

Autor: PEDRO ARUVAI





segunda-feira, 5 de julho de 2010

O tédio - parte 3



O TÉDIO - parte 3

Tentar esquecer essas coisas, livrar-me do tédio antes de
voltar para casa. A casa é o berço do tédio! Resolvo caminhar
a esmo, deixar as pessoas olhando as inutilidades das
vitrines, coragem não tenho para praticar as coisas pensadas.
Ponho as mãos nos bolsos e caminho a toa pelas ruas, sem
importar que rua sigo, nem o destino seguido. Tanto faz! Ali
tem um bar, gastarei o pouco dinheiro que tenho, tomarei
umas cervejas e volto para casa.
O bar quase vazio. Três mulheres sentadas a uma mesa
observo logo ao entrar. Sento-me sozinho a uma mesa num
canto de onde posso ver todo movimento. Olho em volta e
pouca coisa agradável aos olhos. O garçom me traz uma
cerveja. Abre a garrafa e me serve automaticamente. Já está
acostumado. Faz isso a muito tempo! Levar a cerveja onde
está o cliente, abrir a garrafa e despejar o liquido no copo.
Tomo os primeiros goles do liquido gelado e percebo que uma
das moças da mesa ao lado olha insistentemente para mim.
Seria a mais bonita das três ? Não tenho como saber, pois não
posso ver o rosto de uma delas, porque está com as costas
voltada para a minha visão. Imagino que, a que me olha seja a
mais bonita. Imagino e desejo. Fico a pensar!
Esqueço tudo levando o copo de cerveja à boca. “eu sei
quem eu sou.” Penso amargamente engolindo o liquido gelado
e tanta coisa vem à cabeça. Não precisava trazer meu mundo a
esse lugar, nesse momento e desse jeito. Sou uma dessas
pessoas que não conseguem controlar os pensamentos. O
aluguel atrasado a mais de três meses. Talvez quatro! Perdi as
contas dos meses atrasados. Não sei quanto tempo vou
conseguir enrolar a proprietária do imóvel, que por diversas
vezes ameaçou jogar minhas coisas na rua, mas sempre
consigo contornar a situação com promessas e pagamentos
de pequenos pedaços da dívida.
A luz já foi cortada, estou usando luz clandestina. Fiz uma
gambiarra, o popular gato, na fiação do apartamento vizinho.
Uso tão pouca luz que o vizinho nem desconfiou ainda. Talvez
nunca perceba! Registro em carteira faz mais de dois anos que
não tenho. Talvez três! Perdi as contas também do tempo
desempregado. Vivo fazendo pequenos bicos pela cidade. Um
dia aqui, outro ali para sobreviver. Começo a rir de minha
situação. Rir sozinho numa mesa de bar parece estranho.
Preciso me compor, afinal estou num lugar publico e sinto-me
sendo paquerado por uma moça. Talvez esteja enganado! Mas
não há outra pessoa nessa mesa onde estou. Não há ninguém
comigo. Só pode ser para mim que aquela moça está olhando.
Fico pensando essas bobagens.
Levando o copo de cerveja à boca: “paquerado por uma
moça” Penso enquanto os olhos miram na direção da mesa
onde estão as moças. “aquela continua me olhando”. Os
miseráveis também paqueram! Zombo de minha
miserabilidade. Melhor que ficar nervoso, como as vezes fico,
mas não resolve nada. Essa situação de pobreza que vivo me
deixa irado. Viro o rosto para o lado, fico de olhar perdido na
noite tediosa. Aquela moça não sabe de minha situação! Se
ela soubesse quem sou, sequer me olharia.
O garçom se aproxima e nem percebo, fala da moça da
mesa ao lado, mandou-me um torpedo. Leio desinteressado.
Olho para as moças e parecem-me moças de condições
financeira melhor que a minha. Fico pensando no quitinete
onde moro, paredes sujas e úmidas, pintura velha sem cor,
pedaços do reboco caindo, os tacos do piso solto, lâmpadas
penduradas no teto, sem lustres, apenas o soquete pendurado
no fio segurando a incandescente. Chuveiro sem resistência,
tenho tomado banho frio, a resistência queimou a mais de dois
meses, só compro uma nova quando o inverno chegar! Essa
não é hora nem é lugar de pensar nessas coisas! Mas não
consigo controlar nem afastar esses pensamentos. Tomo mais
um gole olhando para as moças.
As pessoas não sabem da gente e acham que a gente é
coisa que presta. Coisa que valha! Só a gente sabe o que a
gente é e sente nesses momentos. O velho ditado diz que,
quem ver cara não ver coração. Melhor seria nem ver a cara.
Evitaria mexer com o coração! O coração as vezes presta
tanto, mas se engana com a cara. No meu caso nem era a cara
nem tampouco o coração, mas a situação financeira. Ali eu era
um nada no meio do mundo, sentia-me assim, a possibilidade
de uma companhia feminina expressada nos olhos daquela
moça, numa noite tomada pelo tédio, melhor nem ver a cara
dos olhos que me sorriam.
Os pensamentos continuavam a me maltratar. Revelandome
o que eu era num momento e num lugar errado. Mas eu era
isso e não havia como me negar. Sofá na sala não tenho.
Apenas uma cadeira que faz parte da mobilia do apartamento.
As cortinas também fazem parte da mobilia, mas tão velhas e
sujas que estão se rasgando. Resto de cortinas que não
serviam nem para ser pano de chão. No quarto a mobilia, uma
cama de solteiro e um velho colchão já sem forro, a espuma
cheia de furos. Um guarda roupa sem porta e apenas uma
gaveta, alimentando os famintos cupins silenciosos. Uma
televisão pequena e um velho radio FM, tudo pertencente a
proprietária do imóvel, que me alugara como “imóvel
mobiliado”. E essa era a mobilia. Tenho apenas umas três
peças de roupas, um sapato semi novo e outro velho, este que
estou calçando, e um chinelo de dedo, é tudo que tenho! Volto
a olhar para as moças, aquela continua me olhando,
esperando uma resposta minha ao seu torpedo talvez.
Só tenho o dinheiro dessa cerveja. Não tenho dinheiro
para taxi. Se ela quiser conhecer minha casa ? Levar uma
moça dessa para meu apartamento seria loucura! O que
fazer ?
O garçom servindo as pessoas, a moça insistia em me

olhar, pensamentos cruéis tomando conta da minha cabeça:
“o que seria que ela estava pensando ao meu respeito ?” O
que uma mulher pensa de um homem quanto lhe manda um
torpedo e ele não age ? O garçom se aproximou, pedir que me
fizesse um favor, foi aonde estava a moça, deu o recado que
mandei e ela veio a minha mesa. Sentou-se delicada, tentando
ser gentil, educada e elegante. Pensei.
Começamos a conversar e enquanto a conversa rolava,
por muitas vezes pensei em lhe falar a verdade sobre minha
vida. Para que enganar uma moça tão bonita e gentil ? Fiquei
nessa indecisão sem saber que atitude tomar, sem coragem de
falar o que tinha em mente: a verdade ao meu respeito. No
desenvolver da conversa fui percebendo o que ela queria e eu
queria também, fui me envolvendo e me deixando se envolver,
e lhe envolvendo nas palavras fúteis da ocasião. Como dizer
não a uma mulher ? Mas seria necessário, eu só tinha o
dinheiro da cerveja! O problema é sempre a falta do dinheiro.
O que poderia me socorrer nesse momento ? Um amigo
faz falta nessas horas! Quando a moça foi ao banheiro, pensei
em duas coisas, se um bom amigo aparecesse por ali naquele
momento, pediria-lhe algum dinheiro emprestado. Porem se
não aparecesse nenhum amigo, teria que apelar para algo
horrível, que jamais pensara um dia praticar. O homem chega
a ter pensamentos baixos e a pô-los em práticas para sair de
situações embaraçosas!
Fiquei pensando num jeito de sair correndo daquele lugar,
atravessaria a rua e me perderia na noite, o garçom talvez me
seguisse gritando, cobrando-me a conta. Ninguém me
conhecia naquele local. Nunca havia freqüentado esse bar.
Que cena horrível! Que vergonha! Olhei para o rapaz
atendendo as outras pessoas e me sentir envergonhado. Seria
muita baixeza! Mas como sair dessa situação ? Contar a
verdade para a moça ? Seria talvez mais cruel. Dizer por
exemplo que não tinha dinheiro para pedir outra cerveja. Não
podia pagar um taxi para levá-la para casa.
Sabia das suas intensões. Também eram as minhas. Era a
primeira vez que a gente se encontrava. Mas hoje em dia as
coisas são assim mesmo. No primeiro encontro as pessoas se
entregam às intimidades. Mas como levá-la para um hotel ?
Nem podia convidá-la à minha casa. Não havia outra
alternativa se não sair correndo desse lugar, como quem
comete um crime. Precisava coragem, para qualquer decisão,
a de fugir ou a de encarar a verdade. No momento de descuido
do garçom, sairia de fininho, como quem não quer nada,
passaria àquela porta e depois de por os pés na rua, ninguém
mais me pegaria. Nunca mais retornaria a esse lugar.
Mas teria que tomar essa decisão e agir antes da moça
voltar do banheiro. Se um amigo não aparecia naquele lugar
nesse momento, o jeito era apelar para a covardia. Olhei para
as ruas e estavam pouco movimentada. Já era tarde. O garçom
estava no outro canto, distraído, servindo as pessoas, nem ia
perceber a minha saída. Sairia devagarzinho. Caso olhasse,
fingiria ir ao banheiro. Mas o banheiro estava do outro lado. O
garçom não notaria minha saída. Nunca havia feito algo
parecido. Não sabia como agir caso não desse certo. Mas
daria certo. Teria que ter coragem. Criei coragem. Seria agora.
Dei uma olhada rápida no ambiente para me certificar onde
estava o garçom e se não havia ninguém no bar me olhando.
Me levantei de onde estava sentado e... "continua "

O TÉDIO - terceira parte
AUTOR: Pedro Aruvai
05 de julho de 2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O tédio - parte 2

foto de Pedro Aruvai


UM CONTO CONTADO ASSIM.

O TÉDIO - parte - 2


Alguns passos pelas ruas bastam para perceber o tédio das ruas. Ruas todas iguais, mal iluminadas por luzes artificiais indecentes! Insetos voam em volta na sua estupidez, querendo ser importante, vencer a luz das lampadas. A cidade tem cores estranhas, ruídos incomuns, vozes pluralistas, figuras mal desenhadas, traçados tortos, esquinas indesejáveis, casas mal construídas misturadas a edifícios luxuosos, ambiente poluído, corrompido, perversões, ruínas, destruições, calçadas sujas, paredes pichadas, mentes perigosas, olhares traiçoeiros, pessoas tristes, pessoas alegres, pessoas solitárias em meio a multidão, desconhecidas de si querendo conhecer alguem, enfim a cidade é um misto de tudo que é bom de tudo que é ruim.

As pessoas são objetos do substantivo composto, umas sem verdade no rosto, pintadas para esconder o tédio, sorridente para disfarçar o medo, são sobreviventes aos quarenta, na insistência de encontrar um grande amor, que não seja tão grande, mas que seja tão bom quanto imagina. O amor é quase pecado para quem busca, quem oferece desconhece as razões do amor e se entrega as paixões revividas nos dias de angustias e tédio para alimentar a fome da carne, que tem desejos insaciáveis. Ando observando tudo! O argumento do mundo movimentado em silencio, e o silencio do movimento para movimentar o mundo. Estico o passo para não ser surpreendido por veículos. Os veículos são maquinas de metais conduzidas volúveis.

A luz vermelha do sinal que acende para segurar os veículos das ruas não são reconhecidas pelos veículos. Desobediência, buzina, aceleração, frada brusca, qual a razão de tanta impaciência com um sinal eletrônico ? Há quem gostaria de abrir o semáforo para passar sozinho, ir embora ao seu destino, as outras pessoas que ficassem paradas esperando a luz verde acender. O mundo deveria ser somente dessas pessoas! Por que tem filhos ? Por que tem amigos ? Por que moram em cidade ? Por que convivem com pessoas, parentes e vizinhos ? Somos todos bem parecidos, por isso somos todos diferentes!

A faixa de pedestre quase apagada. Não reclama de nada. Quantas pessoas pisam essa faixa por dia ? Quantos pneus sobre ela passam ? É apenas listras brancas de tintas sobre um asfalto preto, dia e noite, não muda a cor, e quando muda é porque está sendo acabada. O tédio faz ver essas coisas! Ouvir palavras! Sentir vontades! Querer fazer, mas frear os pés para não cometer loucuras! Reparar numas moças que passam, salto alto no asfalto faz barulho. O equilíbrio da mulher! Toda mulher é antes de tudo uma equilibrista. Se equilibra sobre esses altos saltos e caminha com toda naturalidade humana, umas até desfilam, sem tropeços nem mudança de rota, impressionante como o cérebro da mulher prepara o corpo para o equilíbrio do salto alto.

A realidade visualística do mundo atual é enganadora. É preciso ter cuidado com as coisas que se ver. Nem tudo é o que parece. E o que parece nem tudo pode ser! Há pessoas que gostam de ser diferente! O importante é ser, alguma coisa que mude o tédio. O jeito de ser o mesmo todos os minutos de todos os dias entedia. Fico com as mulheres! Melhor imaginar que sejam mesmo fêmeas! Pelo equilíbrio nos saltos. Pela maneira leve do andar. Pelo mexido dos quadris! O tédio não pode contrariar as coisas. Deixe os olhos se enganarem. A noite favorece o engano. O dia é claro, muitas vezes não esclarece nada, o esclarecimento vem depois. O depois as vezes é dolorido e perigoso.

Sacos de lixos acumulados pelas ruas. Exemplo de uma sociedade sem exemplo. Cachorros farejam os restos da miséria humana. Como a miséria humana fareja a vida do luxo. Vitrines coloridas! Luzes brilhantes se derramam para encantar os olhos do tédio. Parado olhando meu rosto no vidro. Vontade tenho de quebrar essa vitrine. Quebrar tudo lá dentro. Fazer uma grande bagunça. Atear fogo nos artigos de luxo. Pedir socorro para os bombeiros e ficar olhando de fora a situação. Dá entrevista para algum repórter da televisão, aparecer nos noticiários da noite. O repórter prepara a notícia para me entrevistar: aqui tem um rapaz que viu tudo o que aconteceu. E pergunta:

-você viu o que aconteceu ?

-sim vi. Um sujeito ficou aí parado por muito tempo...

-o que ele fez ?

-bem... depois de muito olhar para as vitrines, resolveu quebrar os vidros.

-como ele quebrou os vidros ?

-pegou uma pedra na rua e arremessou contra a vitrine.

-e depois o que ele fez ?

-entrou na loja e começou a quebrar tudo. Fez toda a bagunça e por fim ateou fogo.

-e você chamou a polícia ?

-foi... fiquei assustado, mas corri àquele orelhão e chamei a polícia e os bombeiros, quando ele ateou fogo e o fogo começou a queimar tudo...

-e o homem que fez isso, você viu para onde foi ?

-para aquele lado ali...

-como ele era ?

-um sujeito alto, magro, branco! Um cara muito estranho.

O repórter para de me entrevistar, começa a falar direto para a câmera para encerrar a matéria, fico por ali já pensando em me ver na TV algumas horas depois. Enquanto isso aprecio o trabalho dos bombeiros, apagando o fogo, a agitação da policia, a aglomeração das pessoas que adoram esses acontecimentos, sempre se juntam para apreciar essas coisas nesses momentos, a lamentação dos donos da loja. Esperava mais repórter de outras Tvs me entrevistando, queria aparecer em todos os canais, mas somente um repórter de uma TV que apareceu e me entrevistou.

No meio fio paralelepípedos enormes sorrindo. Estão todos seguros pelo asfalto, difícil de ser movido. Arrancar uma pedra dessa não é tarefa fácil. Parece que aparecer na televisão não é tão fácil assim! Ouço o barulho do choque da pedra contra o vidro da loja, o vidro quebrando, os pedaços caindo, o tédio sorrindo. Passo a mão no vidro da vitrine, a superfície plana, lisa, quente, aquecida pelas luzes que brilham lá dentro. Pessoas passam devagar, outras param olhando as vitrines, apontam para os artigos expostos, falam coisas, olhos desejosos; brinquedos, jóias, tênis, sapatos, roupas e muitas coisas inúteis para se vender. Umas vão, outras vem, acompanhadas, sozinhas, olhando os artigos das vitrines...


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O tédio - partde - 2
Autor; Pedro Aruvai
Maio de 2010


terça-feira, 20 de abril de 2010

O tédio



UM CONTO CONTADO ASSIM.

O tédio


A noite estava um tédio. Dessas noites imperfeitas para a gente mas perfeitas para o tédio nos entediar. Quando se espera um telefonema, o telefone não toca. Ninguém aparece. Ficar sentado no sofá olhando a TV quase sempre repetindo coisas. Coisas repetidas são chatas! Tediosas! Já tantas vezes vistas! A programação repetida na TV é um saco! A mesma programação de sempre, os mesmos personagens, as mesmas historias, os mesmos comerciais... a TV é um tédio!

As paredes do quarto de tão conhecidas parecem aborrecidas. De tão olhadas pelos mesmos olhos já não se ver nem mais desenhos estranhos nelas. Os desenhos sumiram! Se desfizeram e não se fazem mais! Até os desenhos deixaram as paredes. Entediados desse quarto, de mim, de meus olhos que tanto encontrava-os, nos seus contornos silenciosos, nos seus mundos abstratos desconhecidos. Encontrava-os sem procurá-los. Se mostravam, queriam aparecer, eram desenhos inúteis talvez querendo ser arte, agora que procuro eles não aparecem. Talvez tenham ficados aborrecidos comigo!

Se raciocinassem, se pensassem, fossem conscientes, poderiam achar que eu sou mais inútil que eles. Mas eles são apenas figuras criadas, encontrados nas paredes onde as vezes nem há desenhos. Mas eles existem, estão lá, olhando quem lhes olham, nem todos estão prontos, alguns são apenas rascunhos, que mudam de forma dependo do grau de visão de quem lhes olham. Não foram desenhados por nenhum desenhista, por isso são livres, a maneira que se mostram para os olhos de quem quer ver. De quem sabe ver. Figuras estranhas e até vulgares, nenhum santo!

Velhas paredes que não saem do lugar. Não falam, não gesticulam, não riem, são paredes! Espera-se pelo menos um pedaço do reboco caindo. Não cai! Insetos voam para aborrecer os ouvidos. Insetos tem asas e homem não tem! As horas correm depressa e sem frescura. Se amarrassem os ponteiros ou parassem os relógios digitais as horas continuariam passando! Os relógios não são os donos do tempo, eles apenas marcam o tempo que passa. Desligar a TV é a melhor solução. Olhar para a rua pela janela para ver a mesma rua de sempre. As mesmas pessoas. O barulho dos mesmos motores. Tudo é o mesmo tédio! O tédio é angustiante. Sair ? Parece ser a única saída!

A cidade oferece muita coisa. Tudo coisas velhas, repedidas, pessoas bêbadas, irritante, falando besteira, nos balcões, nas cadeiras às mesas dos bares. Mulheres feias dando risada. Mulheres bonitas falando com orgulho, olhando por cima dos ombros para ver entrar algum homem bonito. Tudo é chatice desse mundo tedioso! Se chega a conclusão que o mundo é um saco! Respirar fundo não é o remédio. Tomar agua da geladeira também não quando não se tem sede. Agua gelada dói nos dentes! E só tem gosto de agua gelada. Qual é o gosto da agua gelada ? Passa pela goela e vai embora matar a sede.

Comer chocolate. Sorvete! Qualquer coisa que mude o gosto da boca e a vontade de dá um grito. Os vizinhos escutarão e pensarão que é loucura. Os vizinhos adoram a loucura dos outros! Carniceiros de plantão! Estás enlouquecendo ? Mundo de merda! Fechar a janela batendo com força para satisfazer a raiva. Dá um chute no sofá. O dedo do pé dói. Já é alguma coisa. A dor é sempre alguma coisa a mais! Mas não muda nada. Não socorre as vítimas do sofrimento. A dor só tortura quem já é vitimado! Para que a dor ? Se tivesse dinheiro tudo mudaria, talvez!

Tudo é a droga do dinheiro. Então não há tédio. O tédio é a falta dessa droga chamada dinheiro. Pessoas que tem dinheiro estão se divertindo agora. Bebendo qualquer porcaria, uísque, cerveja, chope, champanhe, acompanhado de amigos, belas mulheres, dançando, sorrindo... então o problema é a falta do dinheiro. Todo mundo sabe disso! Para que repetir ? Cuspir para cima para ver onde vai cair o cuspe. Não é a solução. Sair parece lógico. Qual é a logica do tédio ? Não há logica, é só para entediar.

O tédio pode ser esse quarto, essa casa, esse lugar rodeado de paredes sem desenhos. Está sozinho, o tédio vem fazer companhia. A rua oferece um monte de besteira para se ver, para se fazer, o que se faz na rua quando se está entediado ? Ver as pessoas! Cansado de ver gente. As ruas. Cansado de ver ruas. Como se os olhos não estivessem entendiado de ver essas coisas tediosas todos os dias, como um filme repetido diariamente! Casas, prédios, avenidas, pessoas indo e vindo, carros passando, um tédio!

Tomar uma cerveja. Pegar a carteira, olhar o dinheiro, é pouco o dinheiro que tem, mas dá para uma cerveja. Calçar os sapatos, procurar uma camisa. Qualquer uma! Está boa essa! Pegar as chaves da porta. Ainda pensar: a rua é a solução para o tédio ? Vamos ver! Arriscar abrir a porta e sair, fechar a porta e caminhar pelo corredor até o elevador. Apertar o botão do elevador, esperar uns segundos, portas se abrindo no corredor, pessoas falando, caminhando pelo corredor. São vizinhos que estão vindo tomar o elevador. Não querer encontrar vizinhos nesses momentos, é bom evitar!

Descer pelas escadas. Parado no andar de baixo, as pessoas ainda estão no andar de cima, conversando, segurando a porta do elevador. Continuar a descer pelas escadas. Cada degrau que desce da escada falando baixinho um palavrão. A luz automática apaga. Esperar acender, ninguém acende. Ficar no escuro, descer as escadas no escuro. Antes de tropeçar no degrau de baixo, resolver acender as luzes das escadas. Luzes apagadas é uma droga! Não se enxerga quase nada! Chegar a portaria. Passar pelo portão e ganhar a rua. A rua é a mesma, como sempre, o movimento de gente que não sabe o que quer. É o tédio das ruas. Carros e pessoas passam. Ficar um tempinho em pé na calçada, decidindo para que lado seguir.

Pessoas passam para todos os lados. Tanto lado existe nessa cidade e as ruas levam a todos os lados. A decisão é sempre por um lado e não se sabe porque se escolhe esse lado para seguir. Levado pelos pés, as pernas tem culpa, o desejo da mente, que decide, dos olhos que escolhem, que ver e guiam. Os braços que não sossegam, sempre balançando, para frente e para trás. Esse é o destino decidido a tomar, sem se perguntar por que. Segue-se a esmo, porque é sempre a melhor direção, o esmo, o destino de todos os destinos, que nos leva a todas as direções. E a direção mais certa nesses momentos é não ter uma direção certa...

"UM CONTO CONTADO ASSIM"

-O tédio-

"Terça-feira, 20 de abril de 2010"
"Autor: Pedro Aruvai"